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A LIBERDADE ENLEADA DAS REDES

O tempo em que vivemos é dependente das tecnologias de informação. A Indústria de hardware (processadores, chips, etc) e software (sistemas operativos como o Windows, IOS, e outro tipo de programas) desenvolveram ao longo dos últimos 20 anos, conjuntamente com a miniaturização dos componentes, soluções que levaram a uma maior capacidade de processamento a um custo mais baixo, criando a necessidade de uma maior rapidez nas telecomunicações. Assim, também as tecnologias das telecomunicações sofreram uma evolução nos últimos 20 anos, passando do 2G para o 3G, 4G até se chegar ao conhecido 5G (já se fala no 6G previsto para 10 anos). Aparecem no mercado os telemóveis com uma maior capacidade de processamento (quase idêntica à de um PC) e libertamo-nos da secretária para poder obter informação, passando a estar presente na ponta dos dedos, onde quisermos e sempre que quisermos. Foi assim que se chegou à revolução da informação. Ninguém nega que, hoje em dia, ela está ao alcance de quase todos, serve quase todos e está ligada 24 horas por dia.

Com o exemplo das novas gerações foi-se assumindo uma nova maneira de estarmos informados. Deixou de se consumir informação exclusivamente pelos meios mais tradicionais como a televisão e os jornais. Agora podemos recorrer a uma imensa escolha de plataformas digitais, como o tão conhecido YouTube, entre outras semelhantes. Este é um exemplo onde a informação passou a ser produzida a partir da casa de cada um, para todos aqueles que, ligados à rede, dela queiram usufruir. Assim se foi mudando o paradigma.

Porém, com esta revolução digital vieram também outros desafios. 

A informação ganhou novos formatos e deixou de utilizar apenas os meios tradicionais para fazer a sua propagação. Hoje pode-se criar conteúdo e fazer circular uma notícia, de uma forma muito rápida e quase a custo zero, seja ela verdadeira ou falsa. O melhor dos exemplos é o caso das Fake News, termo popularizado pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump, que fez parte da sua campanha eleitoral, ao repeti-lo vezes sem conta para que assim se desacreditasse a imprensa que não escrevia a seu favor. 

Ao mesmo tempo, eram publicados anúncios nas redes sociais, com conteúdos específicos e desenhados para serem enviados para 50 milhões de perfis alvo das redes sociais Facebook e Twitter. Um programador denunciou que colheu de forma ilegal e sem autorização, os dados desses perfis, recorrendo depois a um algoritmo que cruzou esses dados e conseguiu assim um perfil psicológico de cada pessoa, separando-os e agrupando-os, de acordo com as características-tipo de cada indivíduo. Os dados privados a que teve acesso podiam conter até 9000 características de cada pessoa, entre outras:  a sua movimentação geográfica diária, os seus contactos periódicos, o seu nível cultural, os extractos bancários, e até as suas mais subtis preferências, desejos, medos e anseios. 

Este caso ficou conhecido como o escândalo Cambridge Analytica, nome da empresa que fez a análise dos dados. Criada por Steve Bannon (Chefe Executivo e conselheiro mor de Trump, aquando da campanha que o tornou presidente dos EUA, chegando a fazer parte da sua administração antes de ter sido convidado a sair) e com o financiamento de outro membro do partido republicano, o bilionário Robert Mercer. Steve Bannon é também conhecido nos EUA por ser um dos fundadores de um site de notícias que divulgava alegações falsas e teorias da conspiração. Foi ainda acusado de promover ideologia Neo Nazi e de supremacia branca.

Alguns meses antes das eleições norte-americanas, esta mesma empresa, através dos seus programadores Christopher Wylie e Shahmir Sanni, apoiou o movimento Leave (Sair) durante a campanha Brexit, acabando por ser este o movimento vencedor do referendo que consultou o povo inglês sobre a sua permanência na União Europeia.

Depois do escândalo ter vindo à luz do dia, a empresa foi desmantelada, sendo que há conhecimento de que outras empresas foram criadas por antigos executivos da Cambridge Analytica, como é o caso da Auspex International – que serve para influenciar políticas nas sociedades Africanas e do Médio Oriente. 

Brittany Kaiser, uma outra delatora, terá dito, na última Web Summit que se realizou em Portugal: “Tácticas de comunicação foram usadas para dissuadir mulheres e minorias como eu de irem às urnas, mostrando-nos desinformação e informações que não podiam ser facilmente verificadas e que o Facebook não tinha uma solução tecnológica para identificar e parar”. Segundo ela, por mais promessas que o Facebook faça, “ainda estamos incrivelmente desprotegidos”.

Sabe-se que estas estratégias terão auxiliado Jair Bolsonaro a ser eleito no Brasil, verificando-se também um assustador crescendo destas ferramentas de manipulação pela Europa e pelo mundo. São usadas por forças populistas que querem subir ao Poder de qualquer forma. 

Além da “ferramenta” que construíram para manipular votos através das redes sociais, utilizam uma narrativa impregnada de nacionalismos e baseiam as suas campanhas no ódio, construindo os seus argumentos com base em princípios racistas, sem qualquer respeito pela humanidade e igualdade dos cidadãos, recorrendo à segregação através da polarização da opinião pública, sob a falsa capa de justiça social. 

Num mundo que continua a sua inevitável mudança, é preciso nunca esquecermos a História e os seus verdadeiros factos e perceber quais os pontos de vista de quem a conta. É preciso continuar a crescer, perceber as novas lógicas da comunicação e aprender a ler nas entrelinhas. Não podemos deixar que só o coração “pense”, temos de nos apoiar no conhecimento. Jamais deixar que a cultura se desvaneça e ocupe um lugar secundário. É ela que nos ajuda a pensar e a refletir naquilo que somos, onde estamos e para onde queremos ir. Mais do que nunca, é preciso abrir o debate cívico (e civilizado) entre todas as facções e partidos, e desmascarar as mentiras através de um jornalismo forte e com valores morais e humanos. É preciso combater na nascente estas pseudopolíticas para que ninguém seja impedido de ser livre no seu pensamento, e daí partir para uma vida de integração onde todos contam. 

Habituámo-nos às ferramentas tecnológicas que nos permitem coexistir num mundo virtual, para colmatarmos o que nos faz falta: a existência em grupo. Muitos de nós recorremos, há quase duas décadas, às redes sociais para socializar, ler as notícias, fazer compras, etc… Porém, de que forma estará esta realidade a influenciar-nos? Como estará ela a condicionar-nos nas nossas escolhas?

Que Liberdade é esta, em que a oferta de conteúdo, que nunca antes foi tão grande, se perde na falta de qualidade? Que interesses serve? 

Oferecem-nos a miragem do acesso gratuito à informação e à cultura, hipnotizando-nos para mais facilmente nos manipularem com os seus algoritmos. E assim “compram” intenções de voto, adulterando o normal processo democrático. 

Que liberdade é esta em que o materialismo nos turva a capacidade de pensar claro, despojando-nos da nossa dimensão humana e distanciando-nos das causas que nos afectam directa ou indirectamente, em prol de uma paz cinzenta e anestesiante. Deixámos de procurar a verdade que nos ajuda a saber agir e a defender os nossos direitos. 

É preciso ter cuidado com o que se lê na internet. É preciso interrogar sempre e confiar apenas nas fontes fidedignas.

É preciso não nos entregarmos ao consumo rápido e acrítico.

Que é feito de nós? Que liberdade é esta? 

O mundo de hoje já não é o de há 47 anos. A velocidade que a tecnologia trouxe aos nossos dias quase nos faz desligar de nós próprios e dos que nos rodeiam. É preciso levantar a cabeça do ecrã e olhar para o(a) vizinho(a) da frente, sem medo das diferenças. Só melhorando a comunicação dos olhares conseguiremos a luta ombro a ombro.  

Por estes dias, a palavra Liberdade solta-se dos lábios com mais ou menos ansiedade. À força de uma pandemia, ficámos como que reclusos, presos numa espera de quem se quer cumprir mas tem de se conter, por termos de nos salvaguardar a nós e aos nossos. Sabemos que a liberdade está dentro de nós e nas escolhas que fazemos. Sustentemos a madrugada com a luz da liberdade no olhar.

 Imagem: Chris Potter (www.ccPixs.com)

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