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NO FIO DA NAVALHA IV

Que dizer deste ex-combatente do Ultramar, que é meu pai?

É um senhor que fará 72 anos no dia 21 de Agosto. Bem bonito, o meu pai. Tem olhos esverdeados e um sorriso que nos dizem iguais. Ficou gordinho, entretanto, o metabolismo já não é o que era. Quando combatente, parecia um pau de virar tripas.

Para este aniversário lá vai ele fazer o seu famoso cabrito no forno e, se tivermos sorte, o pudim flan mais famoso da família. Toda a gente come e chora por mais.

Lembro-me que no meu 12º aniversário quase ninguém tocou no meu bolo de aniversário… era tudo à volta da mesa a enfardar pudins… foi uma risada. Lembro-me do abraço que o meu pai deu à minha mãe, afinal estavam a celebrar o 12º aniversário da única filha que fizeram em conjunto e que amavam bastante. Nessa noite, descemos as escadas do prédio, porque ele tinha uma prenda para mim, uma bicicleta, exactamente como eu tinha pedido! Nunca tinha sido tão feliz. Abracei-o com tanta força e durante tanto tempo, que fiquei com os braços cansados. O meu pai pegou-me ao colo e conseguiu subir as escadas do prédio. Era alto e forte. Fisicamente era alto e era forte. Psicologicamente, não.

Isto é o que me apetece escrever sobre ele, imaginando como seria se estivesse aqui. Se alguma vez tivesse estado aqui. 

Este rapaz da aldeia, aldeia pequena, em Trás-os-Montes, daquelas onde o tempo não passava e os automóveis tardaram em chegar, foi levado para Angola para combater “os pretos, os filhos-da-puta, os macacos” que estavam a tentar independentizar-se do Império. Com que ignorância partiu este pequeno aldeão, sem saber do Mundo, para o meio de uma selva desconhecida. Combateu quatro anos (de 1970 a 1974). Devem-lhe ter pesado como quatro séculos.

Diz-se por aí que a realidade supera a ficção. Verdade absoluta, que constatei aos meus tenros 8 anos. 

Na verdade, não conheci muito bem esta pessoa de quem vos falo. A minha tia Estela costuma dizer: “és tão igual a ele, até tens gestos que me fazem lembrar o teu pai. Ele também era assim beijoqueiro, como tu” e sorri. Eu devolvo-lhe sempre o sorriso, com a esperança de que seja verdade, porque assim conheço um bocadinho daquele que me trouxe ao Mundo.

As memórias que tenho dele são poucas. Lembro-me dos terrores nocturnos que tinha e de meter comida nos bolsos, porque “eles vêm aí e ficamos sem comida”.

Lembro-me do silêncio. De o ver muito quieto sentado no sofá, a debater-se com a depressão.

Chegou da Guerra com stress pós-traumático. Sabe-se lá o que viu e o que fez. Seja como for, nunca se perdoou. 

Ninguém reconhecia estas e outras doenças nos ex-combatentes. Lutámos sozinhos.  

Seguiu a carreira militar. Lembro-me de o ouvir dizer que a democracia tinha chegado às ruas, mas dentro do quartel continuava a ditadura.

Depois da passagem-de-ano de 1987 para 1988, desceu as escadas da entrada central do Quartel “do cabeça gorda”, na Estefânia, para a zona dos cacifos. Enquanto um colega trocava umas palavras com ele, uns cacifos mais abaixo, meteu uma 9 milímetros junto à zona temporal da cabeça e disparou.  

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